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24
Out17

Ó DA CASA | O INÍCIO

Paula Taveira

Deixei Lisboa. 
Não nos zangámos nem lhe voltei as costas, mas a verdade é que deixei Lisboa. 
O coração falou mais alto (nem acredito que sou eu que estou a escrever isto), segui-o até à Marinha Grande, em Leiria e agora chamo-lhe casa. 

Foi difícil, ainda o é, mas já está a ser suportável. 
É muito diferente do que estava habituada. Não me consigo deslocar de um lado para o outro com facilidade e sem fazer mil e um cálculos dos horários do autocarro (e não tenho carro). Não tenho as minhas rotinas estabelecidas, vir das Amoreiras a pé até à Baixa é coisa do passado. Acabaram-se as tardes no Arco do Cego com cerveja a 0,50€. Sair do trabalho implica vir para casa, porque o autocarro só passa à hora x e y. Não tenho os meus noodles de 2€ super manhosos. Não tenho o indiano à porta de casa para poder comprar um abre garrafas à pressão. Não posso ir à janela e berrar pela Cris que morava no andar de cima. Os amigos não estão a um passo de distância. Não existe o charme de morar num fabuloso T0 no centro da cidade e a um passo de tudo o que é bom para esta idade. 
Basicamente, é como ser de fora, mas cá dentro. 

Não conheço tudo, é verdade. De facto, não conheço é quase nada. 
Ainda não tenho margem para ir e descobrir, mas provavelmente quando a tiver vai tudo ao sítio. 
Por agora há coisas que ficaram paradas e que tento dar-lhes continuidade. Neste momento já devo estar marcada como stalker nas redondezas e todos os meus e-mails como spam, mas isso passa, não faço mal a ninguém. 
Não é fácil, há dias que não são mesmo nada fáceis, tento fazer aqueles exercícios de respiração e essas coisas zen, mas até agora o que consegui foi um stock de vinho considerável para situações S.O.S (quem não tem cão, caça com gato). 
Hoje é um dia desses. Estou a tentar escrever este post e já lhe perdi o rumo. Não liguem. 

O meu problema é que cheguei a uma zona de conforto, tinha quase tudo estabelecido e agora tenho que começar do zero.  Não sou assim tão aventureira. 

É difícil começar quase do nada? É. Tenho mais responsabilidades, sim! Não porque existe um documento onde está escrito que sou co-proprietária de um imóvel (claramente achei que não me ia entreter o suficiente...), mas porque existe toda uma nova forma de vida que desconhecia até à pouco, a vida a dois. Mas isso já são outros quinhentos e hoje não quero nadaaaa dormir no sofá. 

PORÉM, nem tudo é mau, muito pelo contrário. Só  é diferente. 
Tenho-o todos os dias, nos bons, nos maus e nos que nem eu sei o que são. Existe marisco super fresco, super acessível e eu afogo as minhas mágoas com frequência em petiscos tão deliciosos! Estou perto da Nazaré, mais coisas gostosas. Moro numa zona calma. Tenho um roof top que dá óptimos fins-de-tarde. Cada vez que descubro um novo espaço (sim, outra vez comida) é uma festa. Falo mais ou menos uma língua nova, com umas expressões estranhas, "Ahh meninaaa", acho que isso me qualifica como poliglota. Recebo mimos até não haver amanhã, e bem que podia não haver. Entraram pessoas na minha vida que são da família e me dão todo o tipo de verduras, tudo biológico e tudo muito delicioso. Leiria ganhou uma maluquinha que volta e meia está a fazer poses e caras e coisas estranhas só para conseguir uma foto do "outfit of the day". Reclamei, mas gosto de ter a minha casa e apesar de estar quase vazia, cada dia que passa sinto mais a sensação de lar. É divertido decorar, não é tão divertido quando discordamos, mas isso já passou. E agora que penso nisso ele disse que podia ser como eu quisesse... 
O ar é fresco e puro. Havia imensos verdes. 
Tenho conhecido pessoas novas. As minhas colegas de trabalho são mesmo impecáveis, já foram um grande apoio e ainda o são, depois da última experiência foi uma grande lufada de ar fresco. Estou a aprender a ter uma voz. Os motoristas dos autocarros têm mais vezes TPM do que eu, mas deixam-me sempre sair pela porta da frente, escândalo. TODA a gente, mas TODA a gente diz-me bom dia de manhã. Ao domingo vou sempre às compras. Já aprendi a meter a máquina a lavar e não estraguei nada. Como fazia antes? É melhor não falar. Sempre que preciso de fazer algo, ele leva-me. 
E sempre que preciso está lá. A vida a dois teve alguns trambolhões no início, é normal, quem vier dizer que foi tudo um mar de rosas, mente, e não vale a pena tentar enganar. Tudo se resolveu e agora vai de vento de poupa, podia ir melhor se hoje não tivesse que fazer o jantar, mas passa! Por agora, mas SÓ por agora. 

Provavelmente este post está confuso, estranho, não sei. 
Sei que me fez bem escrever, relembrar-me de tudo o que ganhei e deixar de lado tudo o que perdi. Não perdi o importante, a família e os amigos. Lisboa está a 1h30 de distância, já andei mais tempo de transportes públicos para fazer meia dúzia de metros, vendo bem as coisas não sei do que estou a reclamar. 
Fiz o impensável. Não me arrependo nada e todos os dias sei que fiz a escolha certa. Hoje foi um dia difícil, quem não os tem, amanhã será um dia melhor. Daqui a umas semanas conheço mais sítios, mais gente, surgem novas oportunidades e daqui a um ano tudo vai ao lugar. 

Escrevi tanto e não disse o essencial. 
Há nova rubrica no blog, a  "Ó da Casa", onde falo de episódios do meu quotidiano, ainda no outro dia tive uma experiência com grelos, mas isso fica para depois. 


Por agora, vou fazer uma espécie de jantar. 
P. 





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